terça-feira, 15 de novembro de 2011

Crônica sobre as Órbitas Urbanas


                  Deixe São Paulo te levar

  Seis horas da manhã de um cinzento e chuvoso dia. Estação Sé do metrô. A fila para comprar o bilhete é extremamente animadora, fora a caminhada até os vagões, em que você se sente na própria China pela quantidade de pessoas. A única vantagem é que não é necessário dar sequer um passo, pois o "empurra-empurra" da multidão já te leva a seu respectivo destino. Além disso, não me conformo com o desrespeito que os usuários deste meio público têm pelas normas impostas. Ocupam os acentos preferenciais mesmo havendo idosos, deficientes ou grávidas necessitando dos mesmos; ultrapassam a faixa amarela e permanecem nas portas do vagão impedindo a passagem dos transeuntes. 

    Saindo desse caos infernal rumo ao Paraíso, embora lá a situação não seja muito diferente. Pego um ônibus para chegar ao meu destino final. Não se sabe na verdade o que é pior: pegar metrô ou ônibus. Provavelmente seja por causa da precariedade dos transportes públicos que as pessoas ainda preferem sair de carro. Pisam no acelerador e começa uma maratona maior que a corrida São Silvestre, pois o congestionamento paulistano já foi parar no livro dos recordes. A adrenalina está em alta; os motoristas, altamente estressados, entram em um campo de batalha. Xingamentos, buzinas estridentes, desrespeito aos sinais, batidas...

    Para suportar horas de congestionamento, começam a buscar distrações. Observam da janela a arquitetura de São Paulo. De um lado, o Teatro Municipal, belo, pomposo, restaurado, estilo europeu. Do outro, prédios antigos dominados pelos sem-teto e em péssimas condições; com certeza algo nada belo de se ver. Construções de luxo que se tornaram lixo, degradadas pelo tempo e pela má conservação. Viadutos pichados, com "ratos humanos" vivendo de restos da sociedade.

    Indigente... Mas afinal, o que é ser indigente? A definição do dicionário é: pessoa sem recurso suficiente para sua subsistência. Porém os paulistanos têm a falsa ideia de que os moradores de rua estão nessa condição de vida porque querem; são bandidos, vagabundos que preferem o ócio ao trabalho; são drogados e alcoólatras. A sociedade, porém, generaliza e os vê no coletivo, desconhecendo sua individualidade e história de vida, bem como os reais motivos de sua atual situação. Além disso, são considerados parte integrante da “paisagem da miséria" da cidade. Mas será que os mendigos são mesmo marginais ou, na realidade, são vítimas da própria sociedade? Deixo essa pergunta elementar, meu caro leitor.

    Embora a terra da garoa seja conhecida pela correria do dia-a-dia, o individualismo e a frieza das pessoas, não se pode generalizar. Próximo à padaria da esquina, avisto uma senhora dando alimentos e um cobertor a um morador de rua. Seja rico ou pobre, branco ou negro e jovem ou idoso, todo paulistano necessita de calor humano.
    Observo novamente o prédio em frente ao Teatro. Até que é bonito... Quantas histórias não devem ter se passado ali... O cinza é quebrado pelas flores da praça e pelo sorriso das crianças que brincam livremente, despreocupadas, felizes. Um casal faz juras de amor em frente à catedral. Essa cidade cosmopolita é mesmo um resumo da cultura de inúmeras nações, sem perder sua essência brasileira.

    No metrô Paraíso, um cantor de rua começa seu show. Os passageiros, de repente, esquecem-se de embarcar. Esquecem seu destino, seus problemas, seus desejos. Agora tudo é festa; todos se unem, ao som de uma só voz aos embalos de “Deixa a vida me levar...”.  São Paulo, “leva eu”!



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