terça-feira, 15 de novembro de 2011

Brasil: um país verde, amarelo e cor-de-rosa


O homem sempre representou força, inteligência, poder. Já a mulher, desde a Criação, foi vista como o sexo frágil, símbolo da dependência, da submissão. No Brasil, a situação não é diferente: o gênero feminino sofreu desde a colonização penalidades comparáveis às da Santa Inquisição - em que as mulheres consideradas bruxas eram queimadas em praça pública. Embora o tratamento mundial da mulher tenha evoluído muito, na prática a total igualdade de gêneros ainda não é uma realidade no Brasil como é em alguns países da Europa e da América do Norte. E esse pode ser um fato que impossibilita um maior desenvolvimento do país.

Há 500 anos, a falta de mulheres entre os europeus que chegavam à América estimulou a escravização dos índios. Havia mais homens brancos que mulheres brancas, por isso era muito comum a relação inter-racial entre portugueses com índias e negras. Muitas escravas eram compradas para fins sexuais, exclusivamente. A mulher, além de subordinada ao homem era considerada um ser inferior. As nobres também tinham de obedecer cegamente às ordens do pai e, depois de casada, às do marido. Meninas de quinze anos eram induzidas ao matrimônio com homens muito mais velhos. No fundo, a mulher era um objeto e seu casamento não passava de uma troca de favores políticos e econômicos entre seu pai e membros da elite.

Essa realidade foi retratada na música, na pintura e na literatura; são exemplos as obras “Eva Tupinambá”, de Ronald Raminelli; “A arte da sedução: sexualidade feminina na colônia”, de Emanuel Araújo; e “Casa-Grande & Senzala”, de Gilberto Freyre. Já a realidade atual da mulher é retratada principalmente na mídia, apresentando, muitas vezes, inquietantes semelhanças com o passado. Antes, escravas eram chicoteadas e abusadas como se fossem animais; hoje, as notícias de estupros, assédios sexuais, assassinatos e outras práticas desumanas estampam jornais e revistas, mesmo depois de 500 anos de ''avanço'' e do surgimento da Lei Maria da Penha – a qual penaliza qualquer tipo de violência doméstica contra a mulher.

Essas agressões não têm consequências apenas para as vítimas diretas. O Brasil perde 10% do PIB com a violência contra a mulher, de acordo com declarações da ministra Eliana Calmon. Essa estimativa se refere aos gastos com o sistema de saúde no atendimento às vítimas, à movimentação da Justiça e da Polícia e à interrupção do trabalho das mulheres agredidas. Por essas e outras que o preconceito com as mulheres é mais visível nos países de Terceiro Mundo, que freiam seu desenvolvimento com um machismo arcaico, que além de desrespeitá-las no âmbito físico e sociocultural, as exclui da plena participação política e deleta seu reconhecimento profissional.

No mercado de trabalho, mesmo com maior escolaridade, as mulheres têm rendimento médio inferior ao dos homens. De acordo com dados do IBGE, no mercado formal elas recebem até 74,6% do rendimento médio deles, enquanto no mercado informal esse valor cai para 63,2%. Já na política, o direito ao voto feminino comemora 76 anos graças à Bertha Lutz, a maior líder na luta pelos direitos políticos das mulheres brasileiras, o que evoluiu para a eleição de muitas, inclusive a primeira presidenta, Dilma Rousseff, o que pode mudar drasticamente o cenário brasileiro em relação à discriminação contra a mulher.

Esse cenário tem melhorado ao longo dos anos de acordo com as mudanças da nossa sociedade e com influências externas, como as duas Grandes Guerras Mundiais, em que os homens foram lutar e suas esposas passaram a ocupar seus lugares nas fábricas, demonstrando, muitas vezes, maior habilidade no trato com certas máquinas. Podiam lidar com prensas rotativas com a mesma facilidade com que bordavam uma almofada. Mesmo em meio a preconceito e condições nada favoráveis de trabalho, elas responderam com competência a esse desafio.

Não se deve deixar de citar um dos primeiros movimentos feministas de repercussão mundial, o inglês, que defendera ainda no fim do século XIX o direito ao voto, tendo-o alcançado em 1918, época da maior participação social da mulher em função da Primeira Guerra. Já o movimento feminista da década de 1960 revolucionou a ideologia mundial com relação à mulher, gerando polêmicas principalmente na sociedade norte-americana, com protestos como a famosa queima pública de sutiãs – o sutiã simbolizava uma prisão, uma camisa-de-força, a organização social que enquadra a mulher de uma maneira e o homem de outra. O próximo passo foi a introdução da mulher no mundo da música na década de 70/80, que possibilitou a elas se manifestarem de forma artística acerca de sua realidade social.

Percebe-se que atualmente as brasileiras estão muito mais incluídas ao mercado de trabalho, à política, elevando sua posição na sociedade e nas religiões – hoje é bem comum de se ver mulheres como líderes de igrejas, templos. Elas passaram a assumir funções e posições consideradas exclusivamente masculinas. Veem-se mulheres dirigindo táxis, caminhões, sendo mestres de obra, praticando esportes como lutas, vestindo-se com peças masculinas e esses comportamentos deixaram de ser associados à escolha sexual.

As mudanças são perceptíveis e pode-se afirmar que são, de certa forma, reflexo da atitude das brasileiras, e há muitas no passado que servem de exemplo para as modernas. Chica da Silva, a escrava que se fez rainha, foi a primeira negra a alcançar prestígio e riqueza no país após união com o explorador de diamantes João Fernandes. Tornou-se um mito no imaginário popular. Maria Quitéria, militar brasileira, disfarçou-se de homem para lutar na guerra da independência. Princesa Isabel, a princesa imperial e primeira senadora da nação, aboliu a escravatura e defendia o voto feminino e a reforma agrária. Era partidária de ideias modernas, e sua postura era considerada avançada para a época. Tarsila de Amaral, uma das maiores pintoras brasileiras e seu quadro Abaporu de 1928 inauguram o movimento antropofágico e foi a obra brasileira a alcançar o maior valor em um leilão internacional: 1,5 milhão de dólares. Irmã Dulce, religiosa que se destacou por seu trabalho de assistência aos pobres e aos necessitados e por suas inúmeras obras de caridade no nordeste. Por fim, Maria da Penha, vítima de atentados praticados por seu ex-marido, sua luta e história inspiraram a lei de proteção das mulheres em casos de violência doméstica.

Estas são mulheres que deram sua vida, seu sangue e seu suor por sua comunidade, realizando grandes feitos, sendo orgulho e exemplo para o gênero feminino, modificando seu meio e registrando um legado que marcou gerações. A revolução da mulher foi sim a mais importante revolução do século XX. Cabe a pergunta de Freud: “Mas afinal, o que querem as mulheres?!”. As mulheres querem liberdade, igualdade e permissão para mostrar sua competência e vontade de tornar o mundo – e o Brasil – bem melhor.

Mas como isto pode se tornar realidade? A maior participação feminina na democracia brasileira pode acarretar no tratamento igualitário no mundo do trabalho, participação política, respeito à integridade física e à moral da mulher, gerando reflexos positivos em toda a sociedade. Enfim, o Brasil pode se tornar o país da igualdade em que brancos, pardos, negros, ricos, pobres, homens e mulheres tenham seus direitos garantidos; todos podem pintar esse quadro de esperança de amarelo, azul e, inclusive, cor-de-rosa.

Os habitantes da Miséria

    A existência de moradores de rua nas grandes cidades brasileiras é cada dia mais comum. São quase dois milhões de pessoas que habitam em calçadas, debaixo de pontes, vivendo em condições subumanas e sendo motivo de horror e/ou medo da população. Mas será que os mendigos são mesmo marginais ou, na realidade, são vítimas da própria sociedade? O que se sabe é que a nação mendicante cresce a cada dia, em choque com a nação brasileira por falta de ação do mediador, o governo.

    Tem-se a falsa ideia de que os moradores de rua estão nessa condição de vida porque querem; são bandidos, vagabundos que preferem o ócio ao trabalho; são drogados e alcoólatras. A sociedade, porém, generaliza e os vê no coletivo, desconhecendo sua individualidade e história de vida, bem como os reais motivos de sua atual situação.

    Alguns deles são abandonados pela família na velhice; outros, e a maioria deles, são desempregados, sem oportunidades ou vítimas da má distribuição de renda no Brasil. Já outra parcela acaba nas ruas em situação degradante em função dos vícios no álcool e nas drogas. Nesse caso a atenção deve ser dobrada, havendo tratamento médico, pois os dependentes podem se tornar agressivos e até mesmo cometerem crimes.

    Qualquer que seja a causa, a solução está na ação do governo. A falta desta torna-se ilegal e inconstitucional, já que é obrigatório o respeito e a garantia dos direitos humanos de todos os cidadãos, inclusive dos mendigos. Mesmo sem acesso à propriedade, ao trabalho, ao tratamento médico, ao vestuário, eles é que são considerados os "vilões urbanos".

    O desrespeito aos direitos dos sem-teto afeta também a população em geral, que tem de conviver com "a paisagem da miséria" das cidades, o infortúnio de ser abordada para dar esmolas que não ajudarão em nada e, no pior dos casos, sofrer violência por parte daqueles que veem o crime como a única saída e meio de sobrevivência.

    A desigualdade social é o principal fator que impede que o Brasil se torne um país desenvolvido. Para esta ser reduzida, o primeiro passo é dar mais oportunidades àqueles que não têm nem mesmo moradia. Esse papel é, sobretudo, do governo, o que não significa que os cidadãos comuns não devem ou podem fazer nada. Afinal, todos são suscetíveis a crises financeiras e poderiam "se mudar" para as ruas. Certamente, ninguém gostaria de ser tratado com tal descaso. Por que não oferecer assistência médica, alimentação e emprego aos sem-teto? As ações voluntárias podem amenizar o problema, promover a solidariedade e unir seres humanos de condições diferentes, mas que no fundo são iguais por pertencerem à mesma nação: a nação brasileira.

Crônica sobre as Órbitas Urbanas


                  Deixe São Paulo te levar

  Seis horas da manhã de um cinzento e chuvoso dia. Estação Sé do metrô. A fila para comprar o bilhete é extremamente animadora, fora a caminhada até os vagões, em que você se sente na própria China pela quantidade de pessoas. A única vantagem é que não é necessário dar sequer um passo, pois o "empurra-empurra" da multidão já te leva a seu respectivo destino. Além disso, não me conformo com o desrespeito que os usuários deste meio público têm pelas normas impostas. Ocupam os acentos preferenciais mesmo havendo idosos, deficientes ou grávidas necessitando dos mesmos; ultrapassam a faixa amarela e permanecem nas portas do vagão impedindo a passagem dos transeuntes. 

    Saindo desse caos infernal rumo ao Paraíso, embora lá a situação não seja muito diferente. Pego um ônibus para chegar ao meu destino final. Não se sabe na verdade o que é pior: pegar metrô ou ônibus. Provavelmente seja por causa da precariedade dos transportes públicos que as pessoas ainda preferem sair de carro. Pisam no acelerador e começa uma maratona maior que a corrida São Silvestre, pois o congestionamento paulistano já foi parar no livro dos recordes. A adrenalina está em alta; os motoristas, altamente estressados, entram em um campo de batalha. Xingamentos, buzinas estridentes, desrespeito aos sinais, batidas...

    Para suportar horas de congestionamento, começam a buscar distrações. Observam da janela a arquitetura de São Paulo. De um lado, o Teatro Municipal, belo, pomposo, restaurado, estilo europeu. Do outro, prédios antigos dominados pelos sem-teto e em péssimas condições; com certeza algo nada belo de se ver. Construções de luxo que se tornaram lixo, degradadas pelo tempo e pela má conservação. Viadutos pichados, com "ratos humanos" vivendo de restos da sociedade.

    Indigente... Mas afinal, o que é ser indigente? A definição do dicionário é: pessoa sem recurso suficiente para sua subsistência. Porém os paulistanos têm a falsa ideia de que os moradores de rua estão nessa condição de vida porque querem; são bandidos, vagabundos que preferem o ócio ao trabalho; são drogados e alcoólatras. A sociedade, porém, generaliza e os vê no coletivo, desconhecendo sua individualidade e história de vida, bem como os reais motivos de sua atual situação. Além disso, são considerados parte integrante da “paisagem da miséria" da cidade. Mas será que os mendigos são mesmo marginais ou, na realidade, são vítimas da própria sociedade? Deixo essa pergunta elementar, meu caro leitor.

    Embora a terra da garoa seja conhecida pela correria do dia-a-dia, o individualismo e a frieza das pessoas, não se pode generalizar. Próximo à padaria da esquina, avisto uma senhora dando alimentos e um cobertor a um morador de rua. Seja rico ou pobre, branco ou negro e jovem ou idoso, todo paulistano necessita de calor humano.
    Observo novamente o prédio em frente ao Teatro. Até que é bonito... Quantas histórias não devem ter se passado ali... O cinza é quebrado pelas flores da praça e pelo sorriso das crianças que brincam livremente, despreocupadas, felizes. Um casal faz juras de amor em frente à catedral. Essa cidade cosmopolita é mesmo um resumo da cultura de inúmeras nações, sem perder sua essência brasileira.

    No metrô Paraíso, um cantor de rua começa seu show. Os passageiros, de repente, esquecem-se de embarcar. Esquecem seu destino, seus problemas, seus desejos. Agora tudo é festa; todos se unem, ao som de uma só voz aos embalos de “Deixa a vida me levar...”.  São Paulo, “leva eu”!