terça-feira, 10 de maio de 2011

Crônica sobre o desastre do Japão

Como uma Onda do Mar...


     Era um dia lindo. O sol radiante, o céu azul e límpido, sem nenhuma nuvem. Na península de Ojika o dia começa agitado para os japoneses. Homens de negócios seguem para seus escritórios, criancinhas pegam o ônibus escolar, donas de casa correm para aproveitar as promoções do supermercado, vendedores de bugingangas correm da fiscalização... E a pequena Shanaia observa do colo de sua mãe e com olhar curioso a grandiosidade do arranha-céus construído pela Samsung em frente a sua casa.

     Não muito longe dali, a um raio de dois quilômetros, Tamashiro medita em um templo budista no alto da montanha, com vista para o mar, num local tão natural e divino, contrastando com a vida urbana, acinzentada e tecnológica de Ojika. Tamashiro contempla aquela natureza e sente uma paz interior. Existe lugar melhor que aquele para meditar? Tudo parece tão estático, parado, como numa fotografia. A beleza daquela paisagem seria eterna.

     O mar também permanecia estático, calmo. Veio uma onda inesperada que voltou, fazendo a beira do mar retroceder tanto, que os banhistas que estavam cobertos pela água até o pescoço, passaram a ter apenas seus pés cobertos. Parecia que a água do mar tinha decido pelo ralo, como numa banheira. E assim permaneceu por um bom tempo.

     De repente o mar foi subindo, subindo e veio uma onda monstruosa que afogou todos os banhistas e permaneceu subindo e subindo. Tamashiro despertou de sua meditação ao ouvir o som dos gritos e o barulho da onda. No mesmo instante sentiu o tremor do chão e sentiu medo. O Templo Budista tremia e a primeira rachadura apareceu na imagem dourada de Buda. A paz daquele lugar transformou-se em prantos, tremores, dor e medo. A construção desmoronou e a onda gigantesca continuava a avançar, até que se aproximou da casa da pequena Shanaia. O imenso arranha-céus se tornou pequeno aos olhos dela, já que a onda era três vezes maior. Como se não bastasse essa visão assustadora para uma garotinha de cinco anos, sua casa partiu ao meio e todos que ali estavam caíram dentro da rachadura e foram cobertos por água salgada e escombros de cimento.

     Dentro de cerca de cinco minutos, aquela paisagem bela que parecia aterna foi totalmente destruída e despedaçada. Pessoas, animais, prédios, automóveis, árvores... A ira do mar e da terra calaram a Península de Ojika. A agitação, a correria e os barulhos da cidade foram parados pela natureza e substituídos por um silêncio eterno. Tamashiro, Shanaia e todos os outros saíram desse pesadelo para mergulhar em um sono profundo rumo à eternidade. De agora em diante, só se ouvirá o som das ondas do mar...

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